Imagem: correiokianda
Por Friends of Angola
Washington, D.C., 18 de Fevereiro de 2026
Uma nova investigação forense da Amnistia Internacional, originalmente conduzida pela Friends of Angola e pela Front Line Defenders, confirmou que o spyware Predator, desenvolvido pela empresa de vigilância Intellexa, foi utilizado para visar o proeminente jornalista angolano e defensor da liberdade de imprensa Teixeira Cândido em 2024.
“O caso de Teixeira Cândido surgiu no âmbito de uma investigação mais ampla sobre ameaças de vigilância em Angola ao longo de 2025, originalmente conduzida pela Friends of Angola e pela Front Line Defenders”, afirmou a Amnistia Internacional.
Este é o primeiro caso confirmado de utilização do spyware Predator em Angola e sinaliza uma preocupante escalada na repressão digital contra vozes independentes no país.
Infecção Confirmada por Spyware
De acordo com o Security Lab da Amnistia Internacional, a análise forense do iPhone de Teixeira Cândido revelou evidências de comunicações associadas ao spyware Predator da Intellexa em 4 de maio de 2024, confirmando que o dispositivo foi efetivamente infetado.
O ataque foi precedido por semanas de engenharia social direcionada. Um número angolano desconhecido contactou-o via WhatsApp, apresentando-se como estudantes interessados em discutir os desafios sociais e económicos de Angola. Após ganhar a sua confiança, o atacante enviou links disfarçados como artigos de notícias legítimos. Quando um desses links foi aberto, o spyware foi instalado.
O Predator é uma ferramenta avançada de vigilância capaz de aceder a praticamente toda a informação armazenada num dispositivo. Pode extrair dados de aplicações de mensagens encriptadas, recolher emails e palavras-passe, recuperar fotografias e listas de contactos, monitorizar dados de localização, gravar chamadas e até ativar remotamente o microfone do aparelho. Projetado para deixar poucos vestígios forenses, é uma das formas mais intrusivas de vigilância digital atualmente disponíveis.
Um Padrão de Intimidação
Teixeira Cândido é um jornalista respeitado e antigo Secretário-Geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos (SJA). Desde 2022, tem enfrentado diversas formas de intimidação, incluindo arrombamentos inexplicáveis no seu escritório e o desaparecimento de computadores.
Após a confirmação forense, Cândido descreveu o impacto emocional do ataque, afirmando sentir-se exposto e limitado, incapaz de confiar nos seus próprios dispositivos.
O impacto psicológico é significativo. A vigilância digital não apenas recolhe informação, cria medo, incentiva a autocensura e isola jornalistas das suas fontes. Quando repórteres acreditam que as suas comunicações podem estar a ser monitorizadas, o jornalismo investigativo torna-se perigoso e a fiscalização democrática enfraquece.
Contexto Mais Amplo de Encolhimento do Espaço Cívico
O ataque com spyware não ocorreu isoladamente. Surge num contexto de crescente preocupação com a redução progressiva do espaço cívico em Angola nos últimos anos.
Durante o segundo mandato do Presidente João Lourenço, e a apenas um ano das eleições nacionais de 2027, consideradas das mais disputadas da história do país, foram aprovadas várias leis controversas e amplamente criticadas. Entre elas destacam-se a Lei da Segurança Nacional, a Lei da Cibersegurança, a chamada Lei das “Fake News”, a nova Lei das Organizações Não Governamentais (ONGs) e a Lei dos Crimes de Vandalização de Bens e Serviços Públicos, entre outras, que expandem significativamente o controlo do Governo sobre segurança, telecomunicações e espaço cívico.
Críticos argumentam que estas medidas introduzem disposições restritivas que colocam em risco liberdades protegidas pela Constituição, incluindo a liberdade de imprensa, liberdade de expressão, liberdade de reunião e a capacidade de ONGs nacionais e internacionais operarem de forma independente.
Estes desenvolvimentos coincidem com casos documentados de uso excessivo da força contra manifestantes, detenções arbitrárias e aumento da pressão sobre jornalistas, oposição política e sociedade civil.
Em julho de 2025, Angola viveu um dos episódios mais graves de repressão estatal desde o fim da guerra civil. Protestos desencadeados pelo aumento do preço dos combustíveis espalharam-se pelo país, e as forças de segurança responderam com força letal. Relatórios independentes documentaram dezenas de mortes e detenções arbitrárias generalizadas.
Neste contexto, o uso confirmado de spyware mercenário de nível militar contra um jornalista levanta sérias preocupações sobre o ambiente de vigilância no país.
Embora a Amnistia Internacional não tenha atribuído o ataque a uma entidade governamental específica, a aquisição e utilização de tecnologia de vigilância desta sofisticação é normalmente restrita a atores estatais ou entidades com elevada capacidade financeira e técnica.
Spyware Comercial e Direitos Humanos
O caso angolano reflete uma tendência global: a rápida expansão da indústria de spyware comercial, frequentemente operando com pouca transparência e regulação limitada.
O spyware Predator já foi associado a operações de vigilância em vários países. Embora seja comercializado como ferramenta de combate ao crime e terrorismo, tem sido repetidamente identificado em casos envolvendo jornalistas, defensores de direitos humanos e opositores políticos.
A venda e utilização dessas ferramentas levantam sérias preocupações em matéria de direitos humanos. O direito internacional protege o direito à privacidade, à liberdade de expressão e à liberdade de associação. A vigilância dirigida contra jornalistas sem supervisão judicial enfraquece essas garantias e compromete instituições democráticas.
Spyware como o Predator é particularmente perigoso por ser discreto, invasivo e difícil de detetar. Permite contornar a encriptação, tornando inúteis comunicações consideradas seguras.
Porque Este Caso é Importante
O ataque contra Teixeira Cândido não é apenas uma violação individual, representa uma ameaça mais ampla à trajetória democrática de Angola.
Quando jornalistas são vigiados:
- As fontes podem recusar-se a falar;
- Investigações sobre corrupção e abusos tornam-se mais arriscadas;
- A confiança pública nas instituições diminui;
- O espaço cívico encolhe.
A repressão digital pode ser mais danosa do que a censura visível, pois opera de forma invisível, criando medo e incerteza sem responsabilização pública.
A Constituição de Angola garante a liberdade de expressão e a proteção de direitos fundamentais. A utilização de spyware intrusivo contra um jornalista contradiz estes princípios constitucionais e levanta questões urgentes sobre fiscalização, transparência e responsabilização.
A Necessidade de Transparência e Responsabilização
A Friends of Angola apela a:
- Uma investigação independente e transparente sobre o ataque com spyware;
- Esclarecimento público sobre qualquer aquisição ou uso de ferramentas de vigilância comercial em Angola;
- Reforço das salvaguardas legais de proteção a jornalistas e à sociedade civil;
- Maior escrutínio internacional sobre a indústria de spyware comercial para prevenir abusos futuros.
A proteção dos jornalistas não é opcional, é essencial para o funcionamento de qualquer sociedade democrática.
Uma Encruzilhada para Angola
Angola enfrenta uma escolha. Pode fortalecer instituições democráticas, respeitar liberdades constitucionais e garantir que a tecnologia seja utilizada dentro do Estado de Direito. Ou pode permitir que a vigilância sem controlo aprofunde a desconfiança entre o Estado e a sociedade.
A vigilância digital contra jornalistas não reforça a segurança. Enfraquece a responsabilização, a transparência e a legitimidade democrática.
O caso de Teixeira Cândido deve servir como um alerta. Sem salvaguardas urgentes e fiscalização efetiva, o spyware corre o risco de se tornar uma ferramenta de repressão em vez de um instrumento legítimo de aplicação da lei.
O futuro da democracia angolana dependerá de proteger aqueles que dizem a verdade ao poder, ou de silenciá-los através da vigilância invisível.